Em entrevista exclusiva para o programa Utopia na TV, o repórter e escritor Eduardo Amaro foi até São Paulo, conversar com a cantora independente Olívia, que lança seu mais recente trabalho, “Só a música faz”.
“Só a musica faz” é o terceiro CD autoral de Olivia, sexto da sua discografia, e isso confirma a expectativa de que alguns artistas independentes, conseguem manter-se ativos e, além disso, fazer música de boa qualidade, alheios aos modismos e sucessos fabricados, que entopem a grande mídia. “Só a música faz” é a artista em seu compromisso firmado com sua própria estética musical e nos traz, neste belo registro, compositores pouco conhecidos do grande público, como: Ligia Kas, José Luiz Marmou, Monalisa Lins e a própria cantora, que abriu mão de regravar compositores consagrados da nossa música. Uma opção condizente com sua própria trajetória, que começou em 2000, com trabalho homônimo inteiramente autoral, e prosseguiu em 2003 no álbum “Perto”, trazendo também composições inéditas, suas e de Paulo Preto, seu parceiro desde o primeiro CD.
Depois desses dois lançamentos a artista dedicou-se a um projeto, composto por dois volumes, interpretando, agora sim, mestres do jazz e da bossa, lançado também no Japão. Produziu em 2007 o álbum Full Bloom em parceria com Frank Krischman, compositor brasileiro radicado no Texas, com canções de agradável sonoridade folk.
Produzido e arranjado pela artista, com linguagem moderna, marcada pela mistura de estilos e tendências, seu novo trabalho apresenta uma sonoridade tão singular, quanto sua voz. Em “Só a música faz”, Olivia caminha por baladas, folk e rock, passeando também por ritmos brasileiros; traz harmonias bem elaboradas e belas melodias para cantar versos delicados e marcantes como em “Ausência”: “esse réptil silêncio que rasteja entre as poucas palavras ao chão e um suposto afeto sem perdão”.
Outra bela canção, que evidencia a qualidade poética do trabalho da cantora, pode ser visto na letra de “E você meu amor, não vem?: “Descalça pela rua, pisando na brasa do tempo Me inspiro na saudade do presente. Enquanto a árvore se dobra com o vento. O mundo todo está em movimento”.
Na faixa que dá nome ao trabalho, “Só a música faz”, a cantora declara seu amor e seu desejo pela arte musical, que a acompanha desde a infância: “Quero algo que não saia da mente, nem que a gente tente tirar, (...) envolva a minha cabeça e me leve (...) algo que seja como a alegria que irradia e passa a brilhar”.
Assim, este CD retrata a artista num momento especial de sua carreira. Com melodias agradáveis, letras singelas e produção refinada. Olivia, mais do que uma cantora da nova geração, revela-se artista.
Eduardo Amaro: Olivia, percebemos uma idéia muito interessante, abordada no CD: a idéia do "incompleto". Digo isso, pelo fato de já na primeira música, os complementos estão omissos: "só a música traz (traz o quê?); só a música me deixa (deixa como?)". Essa idéia é complementada pela composição "Ausência", quando a voz lírica nos revela "desejos de uma história, projetos, mosaico incompleto". Nesse ponto, acontece outro fato muito bem trabalhado: uma espécie de "tríade dialógica", ou seja, uma música, que dialoga com outra música, que dialogam com o ouvinte. Comente sobre os aspectos referentes a essa interpretação.
Olívia: O incompleto e o incerto, para mim, representam a realidade. A incerteza e os vazios são parte da verdade de nossas vidas, e acredito que um artista que deseja tocar o ouvinte deve se submeter às suas próprias verdades para conseguir ser crível. Um CD, se encarado como produto final, deve Ter um entendimento de “todo”, e por isso as idéias aparecem e reaparecem no decorrer do mesmo, em formas e cores diferentes.
Eduardo Amaro: Observamos que, a exemplo daquilo feito em Full Bloom, há uma interação matematicamente planejada entre a voz, a letra e os instrumentos. A inclusão de "sons clássicos", como os acordes do violino, dão ao álbum uma elevação espiritual, como se os sons "explicassem" a essência idealizada para o trabalho, potencializando o conteúdo semântico, despertado pelas letras. Posto isso, eu te pergunto: esse é o "estilo Olivia" de fazer música?
Olívia: Sim, acredito que sim. Minha formação é de música erudita, mas minha trajetória é de rock, jazz e música brasileira. Então na hora que estou produzindo os arranjos, os instrumentos que me vêm à mente são variados, de escolas diferentes, o que caracteriza esse resultado diversificado e eclético.
Eduardo Amaro: A introdução de "Ah! Música_incidental" Amor é... , feita em parceria com José Luís Marmou, evoca-nos uma espécie de "mantra", fazendo nossa mente nos remeter ao espírito humano, à alma, complementando a música-título. Podemos afirmar que a música tem uma "alma"? Em que sentido isso se reflete nas pessoas, na sua opinião?
Olívia: A música para mim é tão completa enquanto linguagem que ela consegue penetrar na alma daquele que se envolve com ela, de maneira a ser, a partir daquele momento, um reflexo da alma daquele que a ouve. Essa música do Zé Marmou me tocou muito pela objetividade da mensagem, a simplicidade que sugere ao ouvinte que se envolva o suficiente para realmente ouvir, entender, refletir sobre a criação musical.
Eduardo Amaro: Comentemos um pouco sobre a parte poética, contida nas letras. Encontrei várias figuras de linguagem e de pensamento no trabalho: metáforas, hipérboles, metonímias, personificações, aliterações, só para citar alguns exemplos. Comente sobre a espiritualidade do álbum, representada por meio das construções retórico-poéticas das letras.
Olívia: Todo o meu trabalho é espiritual, pois acredito que a espiritualidade está em tudo o que se faz com amor. As mensagens que escolho são emocionais, espirituais, ricas em imagens e cores que fazem uma comunhão com o ouvinte. Adoro a língua e as formas de expressão que criam texturas e realidades emocionais. É por isso que tenho a sorte de atrair letristas tão especiais e talentosos para trabalharem comigo, como Paulo Preto, Frank Krischman, Monalisa Lins, Ligia Kas e Zé Marmou.
Eduardo Amaro: Temos três composições em inglês, que nos lembram muito o teu álbum anterior, Full Bloom, feito em parceria com Frank Krischman. Estou falando de "Mistery", "Sweet soul singing" e “Bring the boy back home”. Em que medida "Full Bloom" contribuiu para a concepção estética de "Só a música faz", tanto formalmente, quanto musicalmente? Há uma espécie de continuidade, para não dizer aprimoramento, da proposta de Full Bloom nesse novo trabalho?
Olívia: O Folk sempre foi um estilo que me cativou, pelo modo como aproxima o rock da canção, a pegada “melodiosa” que pode se dar às baladas me cativa. Com Full Bloom comecei a me expressar sob a influência do folk, e mantive essa referência de arranjos em algumas músicas do “Só a música faz”. Uma das músicas é mesmo do Frank (Sweet Soul singing) que ele fez especialmente para mim, para o meu canto, isso me emocionou muito.
Eduardo Amaro: Convenhamos que o musicista nesse país, assim como os poetas, são verdadeiros guerreiros da arte. Por esse motivo, devemos sempre agradecer às poucas, porém nobres e idealistas, pessoas que colaboram conosco, tanto financeiramente, quanto artisticamente. A quem você gostaria de expressar os seus sinceros agradecimentos?
Olívia: Eu sempre tive a sorte de atrair colaboradores que gostam do meu trabalho, e que realizam o próprio trabalho com muito amor, como eu. “Só a música faz” não é diferente, e teve muitos colaboradores, pessoas que se importam com a música, que sentem a música, que investem seu tempo e esforços para colaborar num projeto que prima pelo amor à música. Minha família em primeiro lugar, que sempre me apoia, respeita e aprecia meu trabalho, o fotógrafo Felipe Hellmeister, a designer Maria Alice Gonzales, os compositores Paulo Preto, Frank Krischman, Ligia Kas, Monalisa Lins, Zé Marmou, todos os músicos que colaboraram com seu talento para a realização deste CD, e pessoas que, como o jornalista Eduardo Amaro, apreciam e divulgam a música independente!
Papo rápido:
A música é...tudo
A cor que te define é...laranja
Um lugar que te traz paz de espírito...meu interior
A vida consiste em...aprender
Uma frase especial para você...viva a vida!
ENTREVISTA REALIZADA NO DIA 02/10/09, NO “CAFEZINHO” (POMPEIA – SÃO PAULO/SP)Website oficial: www.olivia.com.br
Paulo Preto (produtor) (11) 91815662 / estudio2@uol.com.br